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Entrevistas com a banda

Fanzine Zumbido (Setembro/98)

ZUMBIDO - O romantismo que rola nas letras do Los Hermanos vem de quê? Experiências amorosas ou por causa das influências musicais?

CAMELO - Bem, de alguns anos para cá eu comecei a ouvir muito samba-canção. Sempre me identifiquei muito mais com a onda samba-canção do que com a do Rock. Sempre achei o espírito da boemia carioca muito mais sincero e divertido que o dos roqueiros. Além disso sempre achei o lance do amor-romântico que tem no samba antigo maravilhoso. Acho que este foi o primeiro passo para o surgimento do que é o Los Hermanos de hoje em dia. Figuras como Geraldo Pereira, Noel Rosa, o próprio Chico Buarque em algumas horas, falam de amor de uma maneira com a qual eu me identifico muito. Mas eu também gosto de tocar rock, sempre gostei. Então acabou juntando as duas coisas. Quanto às mulheres, todo mundo já passou por experiências amorosas. Todo mundo já gostou, já se decepcionou, já levou fora. Todos nós já choramos por causa de alguém. As letras do Los Hermanos falam das coisas que todo mundo passa. Porque a verdade é que, mesmo aquele cara mais carrancudo, que diz que é macho e que come todo mundo, mesmo estes caras, assim que tiverem oportunidade, são capazes de entregar um bouquet de flores para menina. Assim como aquelas meninas que fecham o coração, com medo da má fama dos homens, e se escondem atrás de uma suposta auto-suficiência adulta. Na verdade todo mundo quer dar e receber carinho.

ZUMBIDO - Devido à essas letras, causou-se algum estranhamento por parte do público até as pessoas se familiarizarem com a banda?

CAMELO - Até hoje eu acho a coisa meio complicada. Tem gente que acha que a banda é brega. Tem gente que acha que nós somos que nem o Mamonas Assassinas, tem gente que pensa como eu... é um lance complicado. Eu, por exemplo, não acho minhas músicas bregas. Mas quem sou eu pra dizer que elas não são? Música é só música. Se o cara gosta, mas acha brega e o outro gosta e acha Mamonas Assassinas, que se dane. O que não pode é ficar policiando a opinião dos outros sobre a banda. A minha visão do Los Hermanos é muito particular. Eu acho que as músicas tratam de uma dicotomia que existe na história da música popular (não MPB, digo música de rua mesmo, tipo marchinha, ciranda...). O carnaval é uma festa que comporta ao mesmo tempo a euforia e a tristeza, assim como as suas músicas e suas histórias. Tem o lance do Pierrot, que é um folião vestido de palhaço com lágrimas nos olhos, que luta pelo amor da Colombina com o Arlequim. Tem aquelas letras melancólicas de marchinha, que são pra alegrar, mas que são tristes pra cacete "taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim, oh meu bem não faz assim comigo não...". Aquela capa da nossa primeira demo mostra bem isso. As meninas estão vestidas pra cair na folia, com aquela roupa altamente depressiva e aquelas caras amargas.

ZUMBIDO - Curioso no Los Hermanos é o ecletismo. Nota-se influência de jazz, ska, samba-canção, punk rock. Foi difícil achar pessoas com os mesmo gostos pra formar a banda?

CAMELO - Pelo contrário. As pessoas foram entrando na medida em que iam se tornando amigas. As influências vêm num segundo plano. Podia ter calhado de todo mundo gostar da mesma coisa e não ia fazer diferença (na formação, pelo menos). Demos foi sorte de conseguir montar uma banda de irmãos onde cada um gosta de uma coisa diferente.

ZUMBIDO - Mantendo todo esse ecletismo, como foi fazer um público na cidade? Deu trabalho?

CAMELO - A gente tem público? Hahaha, cara, todo mundo que vai aos shows são nossos amigos. Esse underground é muito assim. Os shows tem sempre as mesmas caras. Mas a galera tem gostado da banda, isso é que é legal. Eu tinha muito receio com as maluquices e com o lado mais "popular" da banda. Mas a galera, de uma maneira geral, recebeu bem.

ZUMBIDO - Desde quando existe o Los Hermanos?

CAMELO - Com esta formação há, mais ou menos, um ano.

ZUMBIDO - Essa história de juntar samba-canção e punk rock já lhes trouxe algum tipo de dor de cabeça por causa de caras mais radicais do punk rock?

CAMELO - Ainda não. Às vezes rola de acharem oportunismo, por causa daquela onda de misturar (que já nem é mais onda). Mas a maioria entende que é uma opção natural da banda.

ZUMBIDO - Um de vocês esteve em tour com Wander Wildner no Nordeste, como ficou a banda nesse período? O cara aproveitou pra tentar divulgá-los por lá?

CAMELO - Foi o Victor, nosso antigo baixista. Nem deu pra divulgar nada porque ainda não tínhamos gravado a demo. Mas o cara foi e se divertiu pra caramba. Nesse período que ele ficou lá só tivemos um show e o Patrick, nosso atual baixista, acabou substituindo-o nesse tempinho. Foi tranqüilo.

ZUMBIDO - Uma vez vocês tocaram no rio com o Jason, que é uma banda que não tem muito a ver com o tipo de som que vocês fazem. Vocês costumam dividir shows assim com freqüencia?

CAMELO - Já tocamos com bandas de harcore porradão, tipo Jason e Noção de Nada, já tocamos com a galera de hardcore mais melódico, tipo Freakanoise, Direitos Autorais, Wacky Kids, já tocamos até com o Zumbi do Mato. Não tem muito papo não, cara. Tá todo mundo no mesmo barco. Não tem essa de ficar segmentando. Uma vez eu falei mal do Motim e neguinho não me entendeu. Mas era sobre isso que eu falava. Não tem por que segmentar ainda mais o micro segmento que já é o underground. Se você me perguntar com que tipo de banda eu prefiro tocar eu te digo que é com banda de gente amiga, de gente chegada. Por que aí não tem problema de equipamento, de grana, de horário... tudo funciona melhor.

ZUMBIDO - Na sua opinião, o que falta para a cena rock'n'roll no Rio melhorar?

CAMELO - Faltam casas de show. Aliás, falta neguinho das casas que já existem se ligarem para o nicho de mercado que está aberto pra eles. Essa é uma parada que eu não consigo entender. Nós tocamos outro dia lá no Bukowski e o bar tinha gente saindo pelo ladrão. Tá certo que uma parte foi pra festa que já ia rolar mesmo, mas eu acho que, pelo menos a metade do público, estava lá pra ver as bandas. Falta esse olhar menos careta dos donos de bar. Não é pra ser bonzinho não, não é pra fazer favor, é pro cara ganhar grana mesmo! Imagina se tivesse um bar, na zona sul que toda quinta, sexta e sábado tivesse show, cobrando de entrada 3 reais. Cara, ia virar point, o dono ia faturar muito, não com o ingresso, mas com bebida e comida. Falta também nas bandas essa visão mais empresarial. Não é porque o cara quer apoiar a cultura, ou por que ele foi com a sua cara, que o maluco vai abrir a casa pra você tocar. O cara só abre se for pra ganhar grana. Então, quando for chegar pro cara, tem que chegar com um projeto escrito dizendo isso bem claro. Tipo: "fulano, se você deixar a gente tocar você vai ganhar 25% a mais do que ganharia sem ninguém tocando".