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Entrevistas com a banda

Fanzine Pineapple Popsicle (Fevereiro/99)

PPZ - O Los Hermanos tem uma formação um pouco diferente das bandas brasileiras, com mais de uma voz, sax e tudo mais. Explique para quem não conhece a banda como é a formação, e se ela foi planejada para funcionar de modo distinto.

CAMELO - Somos seis no total. Eu canto e toco guitarra, o Rodrigo Barba toca bateria, Carlos Jazzmovich toca sax tenor, o Patrick Laplan toca baixo, o Bruno Medina toca teclado e o Amarante toca flauta transversa, tamborim e faz a segunda voz. O mais engraçado é que essa formação se deu absolutamente por acaso. No começo tínhamos trompete mas não tínhamos teclados nem backings. O Márcio (trompetista) resolveu sair fora então eu decidi chamar o Bruno, que já era amigão meu e do Carlos, pra tocar teclado (meio que pra preencher os buracos). O Amarante entrou só pra fazer as vozes mas o cara aprendeu a tocar flauta e comprou um tamborim, então a gente resolveu usar também. Mas a banda evoluiu muito de lá pra cá. Quando chamei o Carlos, o cara tinha comprado o sax não havia nem duas semanas, agora ele já está mandando bem pra cacete. O Bruno também vem estudando muito, o próprio Amarante aprendeu a tocar flauta e melhorou pra cacete nos backings. Nós tivemos que descobrir como fazer os arranjos, não tivemos em quem nos basear ou copiar. O sopro do Los Hermanos lembra mais o trombone do samba do que o naipe do ska. Os teclados do Bruno lembram mais música regional alemã do que teclados de reggae. Mas tudo isso misturamos com o hardcore. De qualquer maneira acho que a banda ainda não está definida. Falta muita coisa, falta muito elemento pra acrescentar, muita coisa pra ouvir. A cada ensaio aparece um com uma idéia louca pra uma música que já tocamos. No último show do Garage rolou, por exemplo, uma inserção de música de circo no meio de "Tão Sozinho" e ficou lindo.

PPZ - As letras são o que há de mais original em termos de rock nos anos 90, mas lugar comum para quem conhece o trabalho dos grandes cantores da era do rádio dos anos 50, por exemplo. O que acha disso e quem te influencia de verdade a compor as letras? As letras foram uma tendência natural ou bem pensadas para serem diferentes da mesmice que anda por aí?

CAMELO - Eu já ouço samba há algum tempo. Sempre me identifiquei mais com as letras e as mensagens do samba-canção do que com as letras das bandas de rock que gostava. Nunca conseguiria escrever e cantar as letras que o pessoal de rock canta. Porque simplesmente não sou assim. O romantismo, no meu ponto de vista, é primordial pra qualquer coisa, qualquer uma mesmo. E quer saber, acho que está faltando muito romantismo no mundo. Falta carinho nas pessoas, falta humanidade, falta civilidade, que é uma palavra meio forte mas necessária. Isso você vê quando vai num show e as pessoas se machucam na roda, todas com cara de mau e nenhuma sorrindo. Ou quando você encontra um amigo na rua e tem vergonha de beijar o rosto dele, ou quando você vê uma banda de meninas e fica berrando "gostosa! gostosa!", ou quando neguinho fura a fila, ou quando jogam papel na rua ou quando dão cantada na sua noiva na sua frente. Cara, exemplos eu tenho de monte. Não sei se vivo num mundinho próprio e utópico, mas essa coisa de querer se dar bem, ou quebrar o sistema tirando a roupa no palco, já deu o que tinha que dar. Chega... Acabou... Parece que está todo mundo vivendo na adolescência dos anos 80. Por que destruir e não construir? Se não gosta do sistema, por que repete o que o SEU sistema underground vem fazendo há trocentos anos?

PPZ - A banda tem algumas misturas bem óbvias como o jazz, o ska e o hardcore. O que influencia toda a banda a compor?

CAMELO - Cara, eu ouço música pop pra cacete. Adoro Wander, Acabou la Tequila, Weezer, Wacky Kids... Não consigo ouvir coisas sem melodia bonita. Por isso gosto tanto de samba. As melodias de samba são as mais bonitas que já ouvi. Aí você pega um melodista como o Vadico, por exemplo, e põe numa de suas canções uma letra do Noel Rosa, o resultado é quase sempre uma obra prima. No mais gosto de conhecer o pessoal que experimenta. Tem o Mr. Bungle, que eu acho até legal mas gostaria de vê-los mais mergulhados na onda do circo, tem o Los Fabulosos Cadillacs, tem umas bandas de ska jamaicano tipo o Maytals... Acho que tudo que tenha melodias legais e seja diferente em algum sentido é influência pro Los Hermanos.

PPZ - Quantos shows vocês já fizeram em um ano de banda? E o que já lançaram?

CAMELO - Se eu não me engano foram vinte shows em um ano. Abrindo com o show do Empório e terminando com o Superdemo. Neste curto período de existência lançamos duas demos com cinco músicas cada uma.

PPZ - Vocês acharam melhor não lançar um CD pela Tamborete por acharem que podem conseguir algo maior?

CAMELO - A história não é bem essa. Achamos que é muito cedo para assinar com um selo independente um contrato que nos prenderia por dois anos. Achamos que nossa banda é comercialmente viável (e pelos rumos que estamos tomando, talvez daqui a algum tempo deixe de ser) e achamos que pode acontecer alguma coisa legal em breve. Se não acontecer não haverá arrependimentos. Acho que ninguém que tenha uma banda de um ano de idade com um futuro aparentemente promissor assinaria um contrato a essa altura.

PPZ - Como você vê o mercado para o rock no Brasil atualmente?

CAMELO - Eu já tive mais contato com a cena brasileira. Na época que eu fazia fanzine (Doostraw, em parceria com Alex Werner, hoje empresário do Los Hermanos) era ligado em tudo que acontecia no país. Hoje estou meio por fora. Mas do que eu conheço sei que tem poucas bandas boas e uma imensa maioria que copia tudo que já fez sucesso. Daqui do Rio gosto muito do Wacky Kids, do Acabou la Tequila e do Matanza. Adoro o Graforréia, do sul. Gosto muito da Ultramen (principalmente da época de demo tape). Adoro o Eddie, lá de Recife, também gosto pra cacete do Musgo, uma banda experimental daqui do Rio. Enfim, banda boa tem, mas dentro de uma porcentagem bem pequena.

PPZ - Vocês aliviariam um som pra conseguir um contrato?

CAMELO - Quanto a aliviar o som pra conseguir um contrato, é difícil dizer isso categoricamente, mas não, não aliviaríamos o som pra conseguir um contrato. Se for pra fazer alguma coisa que eu não gosto só pela grana eu vou fazer engenharia, administração ou qualquer outra profissão onde o sucesso, se não é mais garantido, é, no mínimo mais fácil de se alcançar do que na música.

PPZ - Se tem alguém que defenda as bandas brasileiras, sou eu, mas você não acha que o nível anda um pouco baixo? Pelo menos aqui no Rio dá pra contar nos dedos de uma única mão as bandas legais.

CAMELO - Concordo. Mas acho que a coisa é assim mesmo. Pra cada trinta bandas ruins, aparece um Acabou la Tequila, que pra mim, é uma das cinco melhores bandas do mundo. Temos o Mulheres Que Dizem Sim, que voltou agora e é muito bom... Mas em geral as bandas que têm alguma coisa a dizer são as bandas de pessoas mais velhas, mais vividas. É difícil ver banda de moleque, que nem a gente e o Wacky Kids, fazendo som legal. Isso não chega a ser uma decepção pra mim. Acho que o problema vem de antes, da civilidade, do romantismo, da subversão. Ser romântico hoje em dia é ser subversivo. Essa história de "pooo, vamos subir e berrar qualquer coisa, rock n roll", isso é a coisa mais reacionária que existe na música. Rolling Stones, Caetano, Gil, Barão Vermelho, Ratos de Porão, são todos reacionários. Difícil não é dizer "vai tomar no cu". Difícil é dizer "eu te amo", e com sinceridade.