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Matérias de revista e jornal

Jornal do Brasil (Fevereiro/99)

Hermanos, os últimos românticos do rock

     "Tire esse azedume do meu peito/ E com respeito trate minha dor/ Se hoje sem você eu sofro tanto/ Tens no meu pranto a certeza de um amor". Não, não se trata da letra de um samba-canção ou bolero, mas de um punk rock dos mais encapetados, "Azedume", que segue com um dolorido desabafo: "dai-me outro viés de ilusão/ Pois minha paixão tu não compras mais com seu olhar".

     A façanha de levar a densidade emocional a um gênero normalmente restrito à temática protesto-skate-baixaria é da banda carioca Los Hermanos. E não é a única. Fazendo shows há meros um ano e dois meses, eles vêm surpreendendo o meio alternativo da cidade com uma mistura sonora das mais inusitadas - a base é punk, mas com teclados, saxofone (a cargo de Jazzmovich, que acabou de abandonar o barco) e boas doses de tango, jazz e Jovem Guarda. Com apenas duas fitas-demo lançadas - "Amor & Folia" e "Chora" - os Hermanos foram dos poucos cariocas (os únicos sem disco) a serem convidados para a edição 99 do Abril Pro Rock, o maior festival de música alternativa do país, que acontece em Olinda daqui a dois meses.

     Camelo era fanzineiro junto com Alex Werner (hoje empresário do grupo) quando teve a idéia de montar um projeto hardcore ("era um som que predominava no meio zineiro, mas eu nunca fui fã", confessa) com influências latinas. Mas as letras, batia o pé, tinham que falar de amor: "comecei a ouvir muito samba-canção, que tem uma temática mais interessante que a do rock". Depois de shows cada vez mais comentados pela cidade (muito por causa do forte apelo cênico), os Hermanos selaram sua sorte em setembro passado no evento Zinemutante, do CCBB. Sem muita esperança, entregaram uma cópia de "Amor & Folia" a Paulo André, organizador do Abril pro Rock - e ele caiu de amores pela banda. "Recebo muito material. A grande maioria, 70 a 80 por cento, não interessa ao Abril Pro Rock. Do Rio, gostei deles e do Vulgue Tolstói", conta. Ainda meio abalado pela notícia da escalação, o vocalista comemora: "sempre imaginei que a gente poderia se dar bem no Abril pro Rock, o público de lá é muito receptivo. Você bate em caixinha de fósforo e nêgo já tá se batendo".

     Camelo, Bruno Medina (teclados), Amarante (voz e flauta transversa), Rodrigo Lins (bateria) e Patrick (baixo) a rigor jamais poderiam ter formado uma banda. Uma cozinha que esquenta sob o fogo hardcore e metal, um tecladista que pulou do "New York, New York no teclado da vovó para os Hermanos" e um vocalista obcecado por Noel Rosa não tinha como dar certo - mas deu. Em comum entre os músicos, a visão de que rock e sentimento fazem um bom par. "Somos todos pessoas românticas, mas não no sentido clichê. Temos uma forma mais serena de ver as coisas", conta Camelo, que oferece músicas à namorada nos shows e põe suas experiências amorosas em letras como "Primavera", "Pierrot" e "Deus e o Diabo". "Todo mundo que mergulha nos relacionamentos extrai cores da alegria e da tristeza", poetiza. Como bem lembra Amarante, "todo mundo sofre por amor". "Mas só a gente não tem vergonha disso", completa o vocalista, que, para horror dos integrantes da banda, admite gostar muito das baladas melosas do Bon Jovi.

     Apesar de terem recebido convites, os Hermanos ainda põem um pé atrás quando o assunto é disco. "As experiências empíricas (com selos) são controversas", diz Camelo. Em breve eles vão estar passando suas demos para uma edição limitada em CD, que será vendida para custear uma mini-turnê pelo Nordeste após o Abril pro Rock. "Nossas músicas são fáceis de se cantar", diz o vocalista, um dos mais entusiasmados com as possibilidades comerciais da banda. A justificativa é infalível: "Anos atrás, quem iria imaginar "Nega Jurema", dos Raimundos, que tem hardcore e sanfona, iria estar tocando no rádio?". Atenção: dia 21, os Hermanos dividem a noite na Bunker com os Autoramas.